“Venho de Propriá dos tempos chuvosos de abril...”: o intelectual Luiz Rabelo Leite
Manoel Luiz Belarmino*
Poderíamos agora anunciar o crepúsculo de um tempo; o tempo de uma geração de homens que vincularam seus propósitos pessoais a objetivos maiores; uma intelectualidade que sonhava com um mundo melhor, por entender ser possível. Suas vidas estavam atreladas intimamente a um caminhar seguro e resoluto, porque havia um conjunto; havia um arcabouço de valores e metas que tornavam suas existencias mais apaixonantes, porém sofríveis. Luiz Rabelo Leite é parte dessa geração. Não apenas esteve presente dentro do grupo, mas à frente, à medida em que demonstrou em atitudes sua defesa em prol de valores morais. Sua geração, ilustrada por personalidades como Dom Luciano Cabral Duarte, Manoel Cabral Machado, Eunaldo Costa, Núbia Marques, Silvério Fontes, José Amado, José Montalvão, Hélio Ribeiro, dentre outros, firmou o pensamento, embalou a cultura sergipana, ilustrou os espaços por onde o saber era elevado ao mais alto pedestal. Sendo assim, trilhou o caminho da aplicação do saber, apesar de admitir ter encontrado dificuldades.
Quando do seu discurso de posse na Academia Sergipana de Letras, foi enfático ao deixar claro suas origens. Mostrou sua humildade ao afirmar que o homem se faz não pelo que tem, mas pelo que carrega dentro de sí. “Venho de Propriá dos tempos chuvosos de abril...”. Assim humanamente admitia, orgulhoso de sua origem que inundou seu espírito de tantas coisas boas. O que forma o caráter do ser humano, segundo seu pensamento, é, primeiramente, o acúmulo de valores morais que irão norteá-lo na caminhada pela estrada da vida. O arcabouço intelectual é parte importante, na medida em que dará suporte à sua ação como homem social. Por isso, para ele, a formação do indivíduo teria como parte integrante e indispensável o contato com a terra e o povo, com suas agruras e dificuldades. Isto sim, daria a forja, o brio, a hombridade que é necessária a qualquer pessoa. É como se a origem determinasse sobremaneira seu pensamento, suas atitudes, e o norteasse pela estrada da vida. Em seus escritos, é possível perceber o respeito que despendeu ao rio São Francisco, que vivenciou em sua infância e à região Nordeste, palco de assombroso esquecimento.
Luiz Rabelo faz parte de uma tradição que se firmou pela valorização do conhecimento; pelo engrandecimento do espírito, porém sempre firmando pé na beleza das pequenas coisas. Fez valer a poesia e o canto popular como celeiro de grandes ensinamentos. Entendeu que a sabedoria se firma em conhecer o mundo, valorizando a simplicidade da vida como ela é. Seu pensamento estava carregado de compromisso com o ser humano, entendendo que seu verdadeiro propósito seria lutar por sua ascensão social.
Já na maturidade pôde saborear, meritoriamente, seu ingresso na Academia Sergipana de Letras, expressando a honra de ocupar a cadeira de nº 29, que teve como patrono nada menos que Jackson de Figueiredo. Em seu discurso de posse, não poupou elogios ao afirmar que Jackson de Figueiredo, Abelardo Maurício Cardoso e o Monsenhor Domingos Fonseca, seus antecessores, são entes que deixaram uma lição de fidelidade na coerência entre suas ideias e suas ações por onde andou. Seu ingresso nesse sodalício foi uma demonstração de reconhecimento à sua trajetória de intelectual ativo e participante das lides sociais. Desde a década de 50, quando escrevia suas belas crônicas no jornal “A Cruzada”, nelas alertava as autoridades públicas para os problemas sociais.
Nos anos 60, período marcado pelo cerceamento das liberdades, atuou em pról da cidadania, visitando escolas públicas e comunidades no interior do Estado. Era então Secretário de Educação no governo de Seixas Dória. Não agiu só, mas esteve em companhia de homens como o grande educador Paulo Freire e o Arcebispo de Aracaju, Dom José Vicente Távora. Homens que compartilhavam do mesmo compromisso com sua gente. Mas, a bem de que? Da promoção do indivíduo; conscientizando e levantando a autoestima da população; ensinando que são merecedores de respeito e dignidade humanas. Eram tempos difíceis na política. Predominavam grupos políticos na disputa pelo poder local; agindo arbitrariamente na defesa de seus interesses, à revelia do que era justo e correto. Eram tempos onde não havia espaço para a discordância. Quem o quisesse teria que conquistá-la. É neste contexto que vislumbramos o nobre espírito de Rabelo Leite, ao preferir os “espinhos” que o silêncio confortável dos que se acomodam.
Em sua longa carreira de intelectual, encontramos Rabelo atuando como professor da Faculdade de Serviço Social de Sergipe; da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe e da Universidade Federal de Sergipe. Foi também membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e da Academia Sergipana de Letras. Foi nestes espaços onde militou, que seu pensamento encontrou aconchego, dividindo com os pares as inquietações de seu tempo. Seu engajamento com o conhecimento, corroborou para a formação de novas gerações.
Sua postura em defesa de uma justiça social, respeitando os princípios da fé cristã primeiramente, forjou o homem; deu-lhe credenciais às fartas para seu merecimento. Ao refletir sobre o papel do julgador, foi feliz ao afirmar: “O homem vive na esperança de ser mais. Um profundo anelo de vencer o tempo e a morte preside sua vida. Todo ser humano é a expressão de uma esperança ou de uma trajédia. É a este homem angustiado que a justiça presta serviço.” Foi com esse norte que direcionou sua atuação na Magistratura sergipana e assim, obteve respeito e admiração, chegando à corte da justiça estadual como desembargador.
Como membro do Ministério Público e da Magistratura admitiu ser um “apaixonado pelo Direito”. Por isso, ao exercer os cargos, teve a oportunidade de atuar na defesa da justiça, não vista como um Poder, mas comprometida em prestar serviço, em simplesmente servir. “Humanizar o direito” e “democratizar a justiça”, segundo suas palavras, seriam as metas a alcançar para os operadores da justiça.
Consciente da vida e da morte pôde afirmar com sobriedade e sem arroubos: “Encontrei no peregrinar, rosas, jasmins, girassóis e espinhos”. Foi dessa forma que encarou com resignação e respeito as dificuldades da vida.
* Licenciado em História pela UFS / O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.